AntÓnio ConceiÇÃo JÚnior
investigaÇÃo de Isabel Vicente
Apesar do perfil benevolente da cidade, Yuri deve ter contemplado com alguma ansiedade os montes, fortes e igrejas que coroavam os pontos mais importantes de Macau. Yuri podia ver o barco atravessando as águas lamacentas e pouco profundas, deixando um traço de leve espuma à sua passagem.
Dilacerado de novo entre a expectativa e uma imensa fadiga, os pensamentos de Yuri Vitalievitch devem ter-se concentrado sobre o já tão próximo passo. A sua mente continha já demasiadas memórias desde que ele e sua mãe, Antonina Alexandrovna, haviam deixado a cidade natal de Vladivostok e mudado para a urbe chinesa de Harbin, onde Yuri conseguira não só tornar-se um notável estudante como formar-se em arquitectura, com distinção e medalha de ouro acrescentadas de uma bolsa para prosseguir os estudos nos Estados Unidos. Mas isto nunca chegara a verificar-se, no entanto, no coração de Yuri não havia mágoa. Até um certo ponto fora-se habituando inconscientemente à ideia de permanecer num local por um certo tempo que não era controlado por si mas pelo mutável curso dos acontecimentos.
Tinham sido forçados a sair da Rússia com o advento da Revolução Bolchevique, que estava agora reforçada, e o Czar não era mais que uma recordação. Mesmo assim, dentro de si, a nostalgia dos anos de adolescência mantinha-se.
À medida que o barco passava em frente do porto principal da cidade, apontando para o porto interior onde finalmente terminaria a viagem, Yuri examinou a calma da cidade. As luzes começavam a brilhar enquanto o sol se afundava no horizonte e uma brisa suave trazia os sons distantes das gentes ocupadas com os seus afazeres. A sua curiosidade era temperada pelos cuidados e preocupações que consigo levava e pela memória, ainda viva, da sua recente prisão num campo japonês em Hong Kong.
A vida de Yuri tinha sido a de um homem forçado a mudar quase constantemente de lugar.
Durante a sua segunda estadia em Harbin, entre 1933 e 1935, Yuri casou-se com Nina Pleshakoff. Membros da comunidade de russos brancos , o casal tinha tido a sua primeira filha, Irina, em 1934.
À medida que o barco se aproximava do cais, Yuri cingiu a pequena Irina ainda mais junto a si: pensava também na sua mulher Nina, na sua filha do meio, também chamada Nina, e no seu jovem filho Alexander, que ainda se encontravam em Hong Kong, aguardando que Yuri se estabelecesse.
Yuri desembarcou finalmente em Macau, por entre estivadores que descarregavam toda a espécie de mercadoria e locais vindos para saudar amigos que chegavam de Hong Kong. Nesse momento, estava longe de adivinhar que viria a tornar-se um importante cronista da vida de Macau, juntando-se a outros artistas que, antes dele, haviam pintado esta cidade única.
Ao longo do século XIX, Macau tinha sido retratada por numerosos artistas viajantes, na sua maior parte ocidentais que seguiam a tendência em voga da aventura no Oriente. Muitas vezes, o seu objectivo era a China, com Macau a servir de conveniente entreposto antes do destino final. Entre os mais notáveis estrangeiros que retrataram a cidade durante o século XIX contam-se Auguste Borget (1808-1877), George Chinnery (1774-1852) e Thomas Watson (1815-1860). A estes artistas (os dois últimos viveram, de facto, em Macau), é imperativo acrescentar o artista chinês Kuan Lou Yuen, mais conhecido por Lam Qua, e também o artista macaense Marciano Baptista.
Yuri e a filha mais velha albergaram-se primeiramente no Hotel Bela Vista, então cheio de refugiados. Nos dias que se seguiram à sua chegada, Yuri percebeu que as coisas eram difíceis em toda a parte. A sua própria vida tinha sido um saco de dificuldades.
Devido à sua neutralidade, os japoneses não tinham invadido Macau, mas a fome tinha feito as suas vítimas. A cidade era uma imensa rede de pessoas, desde oficiais japoneses a refugiados de diferentes proveniências. Macau era um desconcertante refúgio e um paraíso para todos aqueles que, fugidos dos horrores da guerra, aqui aportavam.
Ao chegar a Macau, passemos a chamar a Yuri a versão inglesa do seu nome: George Smirnoff, um nome pelo qual se tornaria, mais tarde, conhecido em toda a cidade.
George conseguiu encontrar alojamento num primeiro andar da Rua das Seis Casas, por onde se chegava através de uma escura e estreita escada. A casa, pouco mais que uma garagem, precisava de extensas obras. George Smirnoff conseguiu arranjar alguma madeira para reparar as janelas e fabricar alguma mobília básica.
Mais tarde, puderam mudar-se para uma casa situada no número 2 da Rua da Prata, rua que o artista pintaria em duas aguarelas e um pátio, o seu próprio ( ver lista de obras 28. 29. e 30.). Como vizinhos tinham uma família portuguesa no primeiro andar, enquanto outra família russa vivia no outro extremo do pátio.
Os tempos eram muito difíceis, em especial para os refugiados. Por fim, a sua esposa Nina e as duas crianças mais novas conseguiram chegar, ao cabo de muitos trabalhos para conseguir bilhetes no barco de Macau. Conta-se que um certo milionário, um senhor La Salla, que talvez fosse o proprietário do barco, pagou pelos bilhetes em troca de receber mais tarde pinturas de George. A família demorou tempo a estabelecer-se, mas o instinto de sobrevivência levou George a procurar trabalho – tudo o que pudesse servir para sustentar a família.
À época, o Clube de Macau mantinha uma quase permanente venda dos artigos mais necessários, desde roupas a utensílios de cozinha e desde sapatos a cigarros. A família conseguia também comprar pão na padaria do exército português do Quartel General de São Francisco. No entanto, as necessidades mais urgentes de George eram os materiais que lhe permitiriam pintar. Desde os seus dias de Harbin, George tinha estado envolvido em arte assim como em arquitectura. Desenhou o logotipo da universidade bem como os uniformes e, para além do seu trabalho em arquitectura, realizou algumas exposições de pintura. Mais tarde, executou diversos projectos arquitectónicos em Tsingtao (sobretudo Casas de Verão para abastados homens de negócios de Xangai). Para além das suas actividades nestes campos, Smirnoff tinha ainda um especial interesse noutro género de projectos, como o desenho de cenários para teatro.
George Smirnoff trabalhou também para a Hong Kong Engineeering and Construction Company Ltd. em Macau, como relata Ricado Luís Duarte Pages de Noronha que trabalhou para essa companhia. Porém , a pintura permaneceu sempre como a paixão principal de George.
Nesse tempo, os artistas não abundavam na cidade e, para sobreviver, George ensinou pintura às senhoras de Macau. Talvez tenha sido através delas que George começou a desenhar cenários para as produções teatrais do Teatro Dom Pedro V.
Estes espectáculos constituíam uma forma de diversão bem vinda pela população de Macau. A sua filha mais velha contou-me que o pai adorava o teatro, e quando havia audições estava sempre presente e, se porventura houvesse necessidade de um acompanhante para um número musical, George sentar-se-ia ao piano, ouviria o intérprete por alguns minutos e começava a acompanhá-lo. Irina não se lembra se alguma vez o pai representou, mas está certa de que adoraria fazê-lo.
A participação de George nesses eventos artísticos deve ter chamado a atenção do Dr. Pedro José Lobo, um milionário local, líder da comunidade portuguesa, e grande mecenas das artes. Pedro Lobo era proprietário de uma estação de radio, a Rádio Vila Verde, e era ele próprio compositor e patrocinador do Círculo de Cultura Musical de Macau para além de proprietário da Companhia de Abastecimento de Água de Macau. Foi como resultado da intervenção deste homem, que era Director dos Serviços de Economia, que George Smirnoff recebeu encomendas para pintar as várias perspectivas e aspectos de Macau. Pedro Lobo seria depois Presidente do Leal Senado entre 1959 e 1964.
É aqui que os trabalhos agora expostos começam a ganhar forma. Os materiais de pintura não eram fáceis de obter, e Smirnoff teve de contentar-se com uma caixa de aguarelas infantil, possivelmente conseguida no Clube de Macau. O papel também não era umbem abundante. Apesar disso, estas encomendas levariam George Smirnoff a prosseguir a exploração da cidade e a desenhar. Em muitas ocasiões, era acompanhado por um dos seus filhos, que estudavam no colégio de Santa Rosa de Lima, e rodeado, certamente, por uma pequena multidão de curiosos.
Permanece um mistério a razão pela qual as aguarelas de George Smirnoff retratam sobretudo o lado europeu da cidade. No entanto, existem várias explicações possíveis. Em primeiro lugar, ao contrário de Auguste Borget, George Chinnery e de todos os seus predecessores, George Smirnoff tinha vivido anteriormente em Harbin e Tsingtao, logo, os aspectos chineses da vida em Macau não constituíam novidade para si. Em segundo lugar, e talvez a razão determinante, porque esse seria um requisito específico da encomenda. Porém, não se sabe se Smirnoff chegou a falar pessoalmente com o Dr. Pedro Lobo ou se a encomenda foi feita por carta ou por outro qualquer meio. Por fim, enquanto arquitecto, George Smirnoff sentia-se atraído pela arquitectura de inspiração ocidental que fazia, e faz, de Macau um lugar único.
Os seus desenhos eram inquestionavelmente precisos e, provavelmente, a sua formação de arquitecto contribuía para essa precisão. Todavia, observando as suas aguarelas, podemos ver como o pintor que nele havia se revela.
Estes trabalhos soberbos reflectem claramente a atmosfera de Macau nessa época. A maioria das obras possuí uma atmosfera límpida e soalheira. Por exemplo, a sábia manipulação das sombras do branco da fachada utilizado para retratar a Igreja de São Domingos (ver lista de obras .49) , assim como as duas outras pinturas retratando o Colégio Mateus Ricci (ver lista de obras .1 e .2).
A versatilidade de George Smirnoff com a aguarela é evidente nas diferentes condições de luz mostradas nos seus trabalhos. Assim, as suas pinturas do monte da Penha apresentam diferenças na luz e de pormenor. Para o público, será não só importante admirar esta colecção como apreciar a mutação de ambientes de Macau mostradas nestas pinturas. Cada aguarela reflecte o momento do dia em que foi esboçada. Seriam posteriormente aguareladas em casa, mantendo porém o registo da ambiência cromática da hora do dia em que tinham sido esboçadas. Este testemunho da sua filha mais velha é significativo pela revelação do modo como George Smirnoff trabalhava, e constitui testemunho da sua notável memória visual.
Para além desta importante encomenda do Dr. Pedro José Lobo, George Smirnoff prosseguiu também com as suas próprias pinturas. Frequentemente, pintava enquanto ensinava os seus alunos o que, muitas vezes, acontecia ao ar livre. Um dos seus alunos mais atentos e talentosos era um adolescente macaense chamado Luís Demée, que mais tarde deixaria Macau para estudar arte em Portugal e tornar-se, a seu tempo, o mais importante pintor nascido em Macau do século XX. As obras de George Smirnoff, juntamente com as dos seus estudantes, foram mostradas ao público de Macau numa exposição realizada no Colégio de São Luiz entre 20 e 23 de Dezembro de 1944.
Mais tarde, Luís Demée descreveria George Smirnoff como um homem culto, exigente mas .amável, de acentuados traços russos, alto e de cabelo louro e que sofria muito com o clima quente e húmido de Macau. Usava quase sempre calções e sandálias e transportava consigo a caixa de aguarelas, pincéis chineses e uma pequena cadeira de armar. Percorria com frequência a cidade, a pé, em busca de locais para pintar, fossem estes ruas ou paisagens.(1)
O padre Albert Cooney, um jesuíta irlandês e amigo próximo de George, assegurava que o pintor desse algumas aulas de arte e participasse em actividades extra curriculares, tais como a produção de peças teatrais com os alunos. Teria sido aqui que Smirnoff teria podido fruir mais o seu prazer pelo teatro. O padre Cooney e George sentar-se-iam horas a conversar sobre teatro e arte em geral.
Smirnoff era dotado de curiosidade insaciável. Os seus interesses iam da astrologia à geologia, passando pela matemática e pela pesca, sem esquecer a sua outra paixão, o teatro.
George tinha também uma relação de amizade com Jack Braga (aliás José Maria Braga), a quem enviou duas aguarelas e uma carta desejando um bom ano novo.
A interacção de George com a comunidade local era mais vasta. Iniciou uma colaboração com o jornal católico O Clarim, para o qual desenhou uma magnífica nova imagem de título, tal como testemunha uma carta de agradecimento do chefe de redacção.
Smirnoff manteve as suas ligações com o cônsul britânico, Sr. John P. Reeves, que aumentou a ajuda do Foreign Office e do Colonial Office atribuída a mais de 9.000 refugiados de Hong Kong em Macau. É muito provável que George Smirnoff também tenha ensinado pintura às filhas do cônsul.
Com o fim da guerra, os refugiados, incluindo George, regressaram a Hong Kong. Jack Braga organizou um Comité de Reabilitação onde, nas suas notas pessoais, George Smirnoff é referido como Assistente, Serviços Técnicos, Engenheiro Civil e Arquitecto. O regresso a Cameron Road, Hong Kong, constituiu de novo mais um recomeço para George e para a sua família. Não havia electricidade, a água era racionada e os bombardeamentos tinham danificado os edifícios. Em Novembro de 1945, George escreveu a Jack Braga explicando, em pormenor, a sua situação. Reproduzimos aqui essa carta porque ela exemplifica as suas emoções, esperanças, frustrações e sentimentos por Macau.
Ironicamente, foi em plena guerra que George Smirnoff encontrou, na tradicionalmente generosa cidade de Macau, um porto seguro e pacífico. Macau ofereceu-lhe um ambiente de trabalho adequado graças ao qual registou os locais mais relevantes da cidade assim como outros recantos de carácter mais romântico. São estas pinturas que, agora, fazem parte da colecção do Museu e se inscrevem na linha daqueles já aludidos artistas que, desde o século XIX, retrataram a vida da cidade. George Smirnoff foi o primeiro artista estrangeiro no século XX a continuar essa tradição.
A maior parte das aguarelas expostas provêem da colecção de originais do Museu, que foram entregues, em 1945, à Secção Artística e Etnográfica do Museu Comercial e Etnográfico de Macau ( que a partir de 1960 passou a ser designado Museu Luís de Camões).
Algumas outras aguarelas, e pinturas a óleo, foram generosamente oferecidas pela família de George Smirnoff ao Museu Luís de Camões em 1985, quando foi realizada a primeira exposição geral da sua obra pertencente ao então Museu Luís de Camões, integrada nas comemorações do 25º Aniversário do Museu, enquanto as valiosas fotografias da foto-biografia inclusa neste catálogo foram amavelmente emprestadas por Irene Smirnoff, filha mais velha de George.
Neste momento, em comemoração do centenário do nascimento de George Smirnoff em Vladivostok, a mesma generosa cidade de Macau relembra o artista, que a mostrou no seu modo único, duas décadas antes da cidade começar a evoluir e a mudar.
Toda a família de Smirnoff cooperou amavelmente na concretização deste evento. Associo-me assim ao Director do Museu nos agradecimentos à família do artista.
Nota
(1) A afirmação é uma citação de um testemunho obtido em trabalho de investigação. Poderá não reflectir com toda a fidelidade a realidade, como a côr do cabelo que era castanho, mas o testemunho de Luís Demée é apresentado inalterado, como mandas as mais elementares regras éticas.